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terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre a escrita da poesia

Nunca revisito um poema.
Ele lá fica, em estado puro,
Qual bebê nascituro.
Jamais, ainda que o possa,
O releio como um poeta.
Se bom, aplaudo com ardor,
Se mau, lamento-o, como leitor,

Mas jamais coloco um ponto
Que antes não existisse.
E este meu jeito, ou teimosia,
Meu modo de fazer poesia,
Ainda que insistente,
Desvia-se, inconsequente,
Daquilo que se crê ideal.

E minha inspiração, néscia,
Dá de ombros e ignora
Opinião alheia. Vai-se embora,
Deixando o poema que fiz
Inerte em sua matriz:
Sem revisão; à vontade;
Intacto, para a posteridade.

Shirley Carreira

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para sempre


Teu nome calo no fundo da alma,
No silêncio da noite calma,
No cálice das paixões intensas,
Nas brumas das madrugadas densas,
Nas horas em que, às expensas
Do amor, tornas-te infinito.

Anônimo, vives no meu pensamento;
Sem nome, preenches cada momento,
E se eu te escondo da luz do dia,
Perpétuo te torno em poesia.

Shirley Carreira

quarta-feira, 24 de março de 2010

Conversa de poetas em céu estrelado

Para Gustavo Schram


Falo-te em sonhos, murmuro versos
E me faço lembrança ao amanhecer.
Em pleno dia, sou sonho disperso
A desfazer-me em nada, a emudecer.

Minha voz se cala, perco a magia,
No decorrer do dia a agir
Mas volto a ser brisa e fantasia
Assim que a noite começa a cair.

Por isso, se vires no céu a brilhar
Uma estrela um tanto conhecida,
Com um brilho intenso a espraiar,
Derramando sonhos, dores incontidas

Segue-lhe o rastro, seu lamento escuta
Quando, em prata, segue para a luta
Devolvendo em lágrimas de chuva vertidas
Todos os rastros das batalhas perdidas.

E contar-te-ei em sonhos a sua saga
De lutas e derrotas, as poucas vitórias,
O contar será manso, como voz que afaga
Teu sono quieto com as muitas histórias.

E se teus versos os meus encontrarem
No firmamento, onde nunca irão fenecer,
Os belos diálogos que assim travarem
Serão os poemas que havemos de escrever.

Shirley Carreira

sábado, 10 de outubro de 2009

Divulgando a poesia alheia...

SE EU NÃO FOSSE...

Como não derramar
essa poesia
coagulada na retina
Se eu não fosse
essa escrita
não seria outra coisa
senão o silêncio
Um olhar alheio
pendurado num varal
Seria uma noite
tão noite, como
uma sombra densa
onde crestam os
pensamentos.

Marcos Oliveira

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Entre(meios)

Em silêncio
Teço a corrente infinita
Da palavra.

Em suspenso
Cavo as trilhas profundas
Que ela lavra

Em ausência
Deixo um rastro do verso
Que buscava.

Shirley Carreira