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domingo, 10 de março de 2013

Do amor e seus mistérios



Que tolo aquele que pensa
Do amor conhecer as estradas
Os becos de surpresa tecidos
As confusas encruzilhadas.
                                       
Nada se sabe daquilo
Que de corpo e alma se apossa
Senão o tanto que tê-lo
A vida suaviza e adoça.

E muitos no afã de buscá-lo
Não lhe sentem a tênue presença
Dele se esquivam, quando perto,
E se lamentam em sua ausência.

Vestido de ardor e desejo
Ora se consome e se apaga;
Terno, suave e cauteloso
Ora cresce e se propaga.
Se nada dele sabemos,
Origem, razão ou estada,
A ele nos entregamos
Em busca desvairada.

E quando acontece de tê-lo
Ouve-se murmúrio de estrelas,
Ainda  que, de olhos fechados,
Não se possa sequer vê-las.

Shirley Carreira©










domingo, 26 de setembro de 2010

Ao amor que permanece




Sejam minhas as mãos
Que percorrem caminhos
Que só a elas pertencem.
Sejam minhas as mãos
Que o façam por desejar
As trilhas conhecidas
E por nelas ver
Atalhos sempre novos
A desbravar.

Sejam meus, e para sempre,
Aqueles pensamentos
Que vão e vêm e da imagem,
Que é minha, fazem alento;
Que do meu rosto tecem
Mil encantos não fugidios
E paixões intensas
Que se sempre se recriam
E permanecem.

Que seja meu esse amor
Não volátil, não suspenso
Pelas tramas da incerteza;
Revestido pela doce
E infinita calmaria
De reconhecer-se inteiro
Naquele que se amou um dia,
E amá-lo ainda no presente
Fazendo do hoje, sempre.


Shirley Carreira

domingo, 22 de agosto de 2010

Permissão

Permito a invasão da tua imagem
Audaciosa, a adentrar a existência
De um mundo quieto de palavras;
A sua presença e transparência
Feitas revelação e segredo.
Emoção vagando em degredo;
Desejo construído em miragem.

Permito a insolência dos teus gestos
A roubar a paz do meu silêncio;
A soprar os ventos de voragem
Onde havia estática paisagem,
Prosaicos sentimentos manifestos;
A trazer tornados e viração
Onde havia plácida ordenação.

Permito-me mirar caudalosamente
Essa tua imagem fugaz, indiferente,
Sem rastros, descuidada, veloz;
Desastre e paraíso, se os dois
Pudessem ser só um, e depois
Findassem, à luz dos arrebóis.

Shirley Carreira

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Jornada


Move-se a mulher que sou
Pelas brumas
De seus próprios medos;
Segue inebriada
Pelos atalhos
Dos seus segredos.

Move-se sinuosa e canta
A melodia
De ânsias incontidas;
Segue esperançosa e só
Pelos meandros
Insuspeitos da vida.

Move-se na cadência
De passos
Certeiros, milimetrados;
Segue como se jamais
Os tivesse
Tantas vezes trilhado.

Shirley Carreira

sábado, 8 de maio de 2010

Para minha mãe

Já não ouço o consolo da tua voz
Quando nem tudo vai bem comigo,
Já não posso ter naquele tom firme
Apoio, segurança e constante abrigo.

Já não vejo dos teus olhos o azul,
A gargalhada alegre, que, de norte a sul,
Anunciava a tua presença amiga
E confortava os meus dias como um sol.

Já não tenho o calor de teu abraço,
Já não ouço o acorde do teu sorriso,
Mas tenho ainda tudo o que preciso
Que é a tua eterna presença em mim.


Shirley Carreira

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para sempre


Teu nome calo no fundo da alma,
No silêncio da noite calma,
No cálice das paixões intensas,
Nas brumas das madrugadas densas,
Nas horas em que, às expensas
Do amor, tornas-te infinito.

Anônimo, vives no meu pensamento;
Sem nome, preenches cada momento,
E se eu te escondo da luz do dia,
Perpétuo te torno em poesia.

Shirley Carreira

quinta-feira, 18 de março de 2010

Perdas e danos



Metade da minha vida
Gastei pensando
Na metade que queria
Ter gasto amando
E em cada pensamento
Proibido, profano,
Despendi um tempo insano.

Metade da minha vida
Gastei buscando
Uma porção de irrealidade,
Tolamente desprezando
A porção de verdade,
Perdendo, desta maneira,
Metade de uma vida inteira.

Nesta altura da vida,
Metade gasta, mal vivida
‘inda paira o medo atroz
Do desperdício contumaz ;
E, em cada minuto vivido,
Guardo a necessidade
De não perder nada mais.

Shirley Carreira

sexta-feira, 12 de março de 2010

Para que saibas que te amo



Para que saibas que te amo,
Não moverei montanhas,
Nem rasgarei as vestes,
Nem chorarei mil rios.
Para que saibas que te amo,
Guardarei apenas a saudade
Que só os grandes amores
Suportam e superam.

Para que saibas que te amo,
Deixarei que meu olhar te siga,
Que meu corpo te busque,
Que meus sonhos te tragam,
Nos tons, texturas e aromas
Que esse teu corpo encerra,
Para o meu mundo de densa
Quietude e espera.

Para que saibas que te amo,
Deixarei transparecer no olhar
Todas as paixões que me movem ,
Os desejos que nunca escondi.
Para que saibas que te amo,
Não hei de fazer promessas;
Dar-te-ei apenas a certeza
De estar sempre aqui.

Shirley Carreira

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Distância



Sinto-te sombra
Sinto-te vento
Estrela longínqua
No firmamento

Sinto-te música
Tocada ao longe
Sinto-te sol
Que a noite esconde.

Sinto-te verso
Ainda incompleto
Sinto-te fluido
Tão longe, tão perto.


Shirley Carreira

sábado, 7 de novembro de 2009

A versificação do amor



















A versificação do amor
é sempre um quiasmo,
onde tudo se troca,
onde nada pertence a um só.
A versificação do amor
É feita de rimas perfeitas,
De aliterações e consonâncias
E de metáforas oníricas.
É repleta de hipérboles,
Carente de omissões.
A versificação do amor
Não deve ter métrica certa.
A variável, a surpresa,
Faz, do poema, a fortuna.
A versificação do amor
Não precisa de receita,
Mas de um homem e uma mulher
E de um permanente sentimento
De distanciamento do mundo.

Shirley Carreira

domingo, 25 de outubro de 2009

Minha alma tem pressa

Há que prolongar o tempo que voa
E em suas asas fazer florescer os sonhos
E desejos de uma vida inteira;
Há que tornar verdadeiras
Promessas amareladas
No baú do esquecimento.
Há que fruir todos os beijos
Com o gosto do primeiro
E sucumbir ao calor de abraços
Há que verter carinho e alegria
Como se este fosse o último dia.
Há que falar de amor e deixá-lo nascer
Entre as pedras da indiferença.
Há que retornar sobre os próprios passos
Revisitar tudo o que se fez
E aprender com o retorno.
Há que ser criança outra vez.

Shirley Carreira
25/10/2009

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Poema do amor distante




Quero-te como quem busca um sonho
Feito de música e estrelas
E se inebria com a sinfonia
De sua passagem no céu, ao vê-las.
Quero-te como quem corta oceanos
Em frágeis barcos de papel
E arde ante a majestade
De tuas ondas, estradas de mel.
Quero-te como quem olha à frente
Um paraíso por descobrir
E se ufana ante a luz que emana
Da tua presença, eterno luzir.
Quero-te como quem ama à distância
Buscando alcançar-te a cada dia
E traduz o amor que lhe seduz
Nas asas lépidas da poesia.



Shirley Carreira

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Querendo-te



Quero-te no limite
Entre o sonho e a vida
Quero-te na confluência
De meus mares
Quero-te no ímpeto
Das loucas paixões
Na brevidade intensa
Da troca de olhares.

Quero-te, sem querer,
E assim querendo,
No peito, trago o conflito
Entre querer-te
E, sabendo-te distante,
Mais longe desejar-te,
Na vã tentativa
De esquecer-te.

Quero-te no encontro
De sentimentos abissais,
Quero-te no turbilhão
De desejos incontidos.
Quero-te na memória:
Uma presença fugidia,
Com a magia intensa
Dos amores não vividos.

Shirley Carreira