segunda-feira, 21 de junho de 2010

Jornada


Move-se a mulher que sou
Pelas brumas
De seus próprios medos;
Segue inebriada
Pelos atalhos
Dos seus segredos.

Move-se sinuosa e canta
A melodia
De ânsias incontidas;
Segue esperançosa e só
Pelos meandros
Insuspeitos da vida.

Move-se na cadência
De passos
Certeiros, milimetrados;
Segue como se jamais
Os tivesse
Tantas vezes trilhado.

Shirley Carreira

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A voz de Saramago se calou para sempre. Fica a lembrança.


Eu, ao lado do escritor, no congresso da AIL, em 1999.
Não mais o traço da tua pena,
Não mais a voz dissonante,
Não mais o desafio da escrita,
Mas para sempre a ousadia
Da arte que transgride a norma;
Para sempre os olhos que vêem
Além da mera imagem;
Para sempre a lucidez
Ante a cegueira do mundo.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Este corpo




Este corpo em que silencio
Ardores, temores e cio
É chama que arde constante
E se eleva a cada instante;
E transbordam, em abismo
De infinito mutismo,
Os desejos em turbilhão,
Sede, fome, paixão.

Este corpo, que transcrevo
Em versos, tem o relevo
De terra por desbravar,
Em rimas faz-se revelar
E o ícone do seu segredo,
Do pensamento em degredo,
Em meu olhar jaz inscrito:
É este arder infinito.

Shirley Carreira

sábado, 8 de maio de 2010

Para minha mãe

Já não ouço o consolo da tua voz
Quando nem tudo vai bem comigo,
Já não posso ter naquele tom firme
Apoio, segurança e constante abrigo.

Já não vejo dos teus olhos o azul,
A gargalhada alegre, que, de norte a sul,
Anunciava a tua presença amiga
E confortava os meus dias como um sol.

Já não tenho o calor de teu abraço,
Já não ouço o acorde do teu sorriso,
Mas tenho ainda tudo o que preciso
Que é a tua eterna presença em mim.


Shirley Carreira

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Descoberta

Já não tenho aqueles olhos jovens
Aquelas retinas permeadas de poesia;
Já não tenho aqueles sonhos intrépidos.
A vida passou por mim e eu não sabia.


Já não sou o que a imagem acolhe;
O que expõe a fisionomia.
Há outra face sob o sorriso;
Há lembranças muitas, velhas fantasias.


Já não tenho a firmeza de gesto,
O ímpeto, a coragem, a ousadia,
O ardor intenso que imponho aos versos.
A vida passou por mim e eu não sabia.


E, na passagem, deixou-me tantas dores,
Tantos segredos, tanta nostalgia,
Que, hoje, mistérios descobertos,
Sou sombra e saudade do que fui um dia.

Shirley Carreira

terça-feira, 27 de abril de 2010

Sobre a escrita da poesia

Nunca revisito um poema.
Ele lá fica, em estado puro,
Qual bebê nascituro.
Jamais, ainda que o possa,
O releio como um poeta.
Se bom, aplaudo com ardor,
Se mau, lamento-o, como leitor,

Mas jamais coloco um ponto
Que antes não existisse.
E este meu jeito, ou teimosia,
Meu modo de fazer poesia,
Ainda que insistente,
Desvia-se, inconsequente,
Daquilo que se crê ideal.

E minha inspiração, néscia,
Dá de ombros e ignora
Opinião alheia. Vai-se embora,
Deixando o poema que fiz
Inerte em sua matriz:
Sem revisão; à vontade;
Intacto, para a posteridade.

Shirley Carreira

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Para sempre


Teu nome calo no fundo da alma,
No silêncio da noite calma,
No cálice das paixões intensas,
Nas brumas das madrugadas densas,
Nas horas em que, às expensas
Do amor, tornas-te infinito.

Anônimo, vives no meu pensamento;
Sem nome, preenches cada momento,
E se eu te escondo da luz do dia,
Perpétuo te torno em poesia.

Shirley Carreira

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Da alegria e seus rastros

Já não sei falar de ausências,
De faltas falar já não me apraz,
Nem tampouco de aparências,
Nem das dores que a vida traz.

Destarte os sonhos hei de cantar,
Brotando d’ alma como luz ardente,
A graça do amor a transbordar
De um singelo poema nascente.

Hei de cantar o belo e a alegria,
Seu doce acorde transformar
Em verso, em fluida poesia,
Enquanto puder versejar.

E quando, por fim, se calar
A voz do poeta, e eu me for;
No céu de ébano há de brilhar
Um rastro de luz e amor.

Shirley Carreira

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A ordem das coisas




Que importa ao mundo
Se teu simples olhar
Acende em mim
Mil arrebóis;
Se teus sorrisos
Tem o alcance
De mil faróis.

Que importa ao mundo
Se por ti incandesço,
Ardo, queimo,
Enlouqueço;
Se a tua imagem
É para mim
Como voragem.

Que importa aos demais
Se, para mim,
És pura paisagem,
Sem que possa jamais,
De ti, o olhar desviar
Sem querer-te
‘inda muito mais.

Shirley Carreira

quinta-feira, 25 de março de 2010

Como escrever poesia


Urge escrever poesia
Como quem colhe
A flor dos males alheios,
Os gestos, os entremeios
Da performance contida
Dos atores da vida.

Urge escrever poesia
Como quem sangra
Na pele o corte profundo
Dos dramas, das dores
Dos inimagináveis horrores
Que assolam o mundo.

Urge escrever poesia
Como um rio perene
Que deságua sempre voraz
Nas correntezas implacáveis
Redemoinhos instáveis
De um destino mordaz.

Urge escrever poesia
Como quem tece redes
De tramas largas, capaz
De trançar versos e esperança
Como um anjo criança
Que sonha e dorme em paz.

Shirley Carreira