
sob a pele do efêmero
e urdir a trama de um poema.
Quero dar vida a pensamentos
gestados diuturnamente
em silêncio.
Quero avizinhar-me e, quem sabe,
desvendar os mistérios
desta outra que, discreta,
vive cá dentro de mim.
Shirley Carreira
Site de poesia.

Não escrevo o poema.
Ele, de mim, se apropria,
Em minha pele se instala
E se alastra; se propaga,
Da alma tomando posse.
Quem dera poeta eu fosse.
Não luto com palavras.
Elas me invadem, insidiosas,
E me corroem, destemperadas,
E me seduzem, despudoradas;
Em minha voz se insinuam.
Quem dera se as dominasse.
O poema me vem como onda
A trucidar rochedos que me habitam
A preencher abismos de silêncio
E quando se concretiza na palavra
Já não sou mais aquele que fala;
Senão uma outra voz que surge
Enquanto a minha se cala.
Shirley Carreira
De meu corpo, guarda a lembrança;
Dos muitos beijos e carícias;
Do amor intenso, as primícias;
Da paixão vertiginosa, a ânsia.
Da minha saudade, toma posse
E leva contigo meu pensamento;
E os meus desejos ainda vivos,
Que, a cada dia, eu reinvento.
Guarda cada olhar um dia trocado,
Cada gesto de carinho e ternura;
A liberdade de amar e ser amado;
O desvario, a doce loucura.
Shirley Carreira
Há de chegar o dia
Em que minha palavra
Não será este ruído
Sem eco.
Há de vir o momento
Em que os sons ouvidos
Produzirão
Sentido.
Há de vir o instante
Em que buscarão ouvir
E a boca
Estará selada
E a palavra,
Muda.
Shirley Carreira
Sinto saudade do ser que fui
E que jamais tornarei a ser
Falta-me a graça, que se dilui
A cada novo amanhecer;
Falta-me a força e outro tanto
De alegria que, antes, eu tinha;
Resta-me só como acalanto
A lembrança, que se avizinha,
e traz de volta ao sol e à luz
instantes perfeitos e a glória
de tantos momentos de vitória,
de enlevo, de paixão qu’inda seduz
este ser quieto, soturno, sombrio,
mudo, inquisidor, arredio
que vive cá dentro de mim.
Shirley Carreira

Quando te faço estrada
Metáfora e palavra
Dos caminhos de mim,
Traço-te linha sinuosa,
E a percorro, caprichosa,
Sem saber aonde me leva,
Seus desvios e fim.
Mas avanço,
Palavra solta,
e revolvo feito louca
todo o verbo/poeira
que em mim se entranha;
não sei se sonho, se manha,
se ímpeto ou teimosia,
tu segues e eu te sigo
vida afora, noite e dia.
Shirley Carreira
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